Reflexos de Perséfone


19/08/2008


ORAÇÃO DA SOLIDÃO

Saint Exupéry

 

Tende piedade de mim, Senhor, porque me esmaga a minha solidão.

Não há nada que eu espere. Aqui estou neste quarto, onde nada me fala. E, no entanto, não são presenças que eu solicito; se mergulhar na multidão, ainda me descubro mais perdido. Mas aquela outra que se parece comigo, também sozinha num quarto semelhante, aí a tens cumulada, se os seres da sua ternura vagueiam pela casa, Ela não os ouve nem os vê. De momento, não recebe nada deles. Mas, para ser feliz, basta-lhe saber a casa habitada.

Senhor, também não peço nada que se veja ou se ouça. Os Vossos milagres não são para os sentidos. Para me curardes, basta-vos iluminar-me o espírito acerca da minha morada.

Senhor, se o viajante perdido no deserto pertence a uma casa habitada, ele goza dela, muito embora a saiba nos confins do mundo. Não há distância que o impeça de ser alimentado por ela e, se morrer, morre no amor... Eu nem mesmo peço, Senhor, que a minha morada seja perto de mim.

O transeunte perdido no meio da multidão transfigura-se ao ser ferido por um rosto, mesmo que o rosto não seja para ele. Assim o soldado apaixonado pela rainha. Ele se torna soldado de uma rainha. Senhor, eu nem mesmo peço que me prometas essa morada.

Há, ao longo dos mares, destinos ardentes votados a uma ilha que não existe, Os do navio cantam o cântico da ilha e sentem-se felizes com isso. Não é a ilha que os cumula, mas o cântico. Senhor, eu nem mesmo peço que essa morada exista nalguma parte.

A solidão, Senhor, é apenas fruto de um espírito que está doente. Ela não habita senão numa pátria, a qual é sentido das coisas. Assim o templo, quando é sentido das pedras, Só tem asas para este espaço. Não goza com os objetos, mas apenas com o rosto que se lê através deles e que os liga uns aos outros. Fazei simplesmente, com que eu aprenda a ler.

Nessa altura, Senhor, ter-se-á acabado a minha solidão!

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 11h15
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Um dos livros mais poéticos que li até hoje foi Cidadela de Saint Exupéry.

Aqui transcrevo algumas frases que me inspiram.

 

"Se o escultor despreza a argila, terá de modelar o vento. Se o teu amor despreza os sinais do amor a pretexto de atingir a essência, o teu amor não passa de palavreado."

 

 ..." o amor não é tesouro a conquistar, mas obrigação de parte a parte"...

 

"Tu não pode atribuir nada a ti próprio. Não és cofre nenhum. És o nó da diversidade".

 

"Cai no ridículo a semente que se queixa de que a terra através dela se torna salada, em vez de cedro; se ela é apenas semente de salada".

 

"Se eu encontrasse o que procuro é porque teria acabado de me realizar".

 

"Se julgas que a própria árvore vive para a árvore que ela é... é sinal de que nem sequer vislumbras o que é alegria. A árvore é fonte de sementes aladas e vai-se transformando e alindando de geração em geração. Ela caminha, não a tua maneira, mas como um incêndio dirigido pelos ventos. Se plantares um cedro no alto de uma montanha, verás a floresta deambular lentamente ao longo dos séculos. Se se julgasse o que é que a árvore se julgaria? Julgar-se-ia raízes, tronco e folhagem. Julgaria servir-se a si própria ao plantar suas raízes, ela que não passa de via e passagem, A terra através dela casa-se com o mel do sol, desabrocha em botões, abre-se em flores, compõe sementes, e a semente leva consigo a vida, como um fogo preparado mas invisível ainda".

 

"Fiquei a meditar muito tempo na muralha. É em ti que a verdadeira mulha existe".

 

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 10h52
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O início de nossa adolescência pode ser palco de mudanças dramáticas. Esta foi a minha percepção.

 

Pedaços de Mim

 

Resta-me uma necessidade de rir e cantar

Ficar despreocupada

Olhar o mundo com olhos de criança

Colher flores, sonhar de coração aberto

Defender com unhas e dentes um amigo fantasma

Correr livremente nos jardins da minha ilusão

Desmanchar bolas de neve

Ver a gente grande como incompreensível, mas boa.

 

Resta-me um grito incontido que esqueceu de gritar

E lágrimas secas sem rosto por onde rolar

Partiu a ilusão dos sete anões que vinham me buscar

Entristeceram-se os jardins e os pássaros

O meu pequenino dente de leite não existe mais

Foi embora a poesia ingênua da menina

E em seu lugar, surgi

Uma incompreensível gente grande

com uma grande criança incompreendida dentro de mim...

1974

 

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 10h02
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12/08/2008


Elegia

Carlos Drummond de Andrade 

Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaçam, num suspiro.

E me pergunto e me respiro
na fuga deste dia que era mil
para mim que esperava,
os grandes sóis violentos, me sentia
tão rico deste dia
e lá se foi secreto, ao serro frio.

Perdi minha alma à flor do dia ou já perdera
bem antes sua vaga pedraria?
Mas quando me perdi, se estou perdido
antes de haver nascido
e me nasci votado à perda
de frutos que não tenho nem colhia?

Gastei meu dia. Nele me perdi.
De tantas perdas uma clara via
por certo se abriria
de mim a mim, estrela fria.
As arvores lá fora se meditam.
O inverno é quente em mim, que o estou berçando
e em mim vai derretendo
este torrão de sal que está chorando.

Ah, chega de lamento e versos ditos
ao ouvido de alguém sem rosto e sem justiça,
ao ouvido do muro,
ao liso ouvido gotejante
de uma piscina que não sabe o tempo, e fia
seu tapete de água, distraída.

E vou me recolher
ao cofre de fantasmas, que a notícia
de perdidos lá não chegue nem açule
os olhos policiais do amor-vigia.
Não me procurem que me perdi eu mesmo
como os homens se matam, e as enguias
à loca se recolhem, na água fria.Dia,
espelho de projeto não vivido,
e contudo viver era tão flamas
na promessa dos deuses; e é tão ríspido
em meio aos oratórios já vazios
em que a alma barroca tenta confortar-se
mas só vislumbra o frio noutro frio.

Meu Deus, essência estranha
ao vaso que me sinto, ou forma vã,
pois que, eu essência, não habito
vossa arquitetura imerecida;
meu Deus e meu conflito,
nem vos dou conta de mim nem desafio
as garras inefáveis: eis que assisto
a meu desmonte palmo a palmo e não me aflijo
de me tornar planície em que já pisam
servos e bois e militares em serviço
da sombra, e uma criança
que o tempo novo me anuncia e nega.

Terra a que me inclino sob o frio
de minha testa que se alonga,
e sinto mais presente quando aspiro
em ti o fumo antigo dos parentes,
minha terra, me tens; e teu cativo
passeias brandamente
como ao que vai morrer se estende a vista
de espaços luminosos, intocáveis:
em mim o que resiste são teus poros.
E sou meu próprio frio que me fecho
Corto o frio da folha. Sou teu frio.

E sou meu próprio frio que me fecho
longe do amor desabitado e líquido,
amor em que me amaram, me feriram
sete vezes por dia em sete dias
de sete vidas de ouro,
amor, fonte de eterno frio,
minha pena deserta, ao fim de março,
amor, quem contaria?
E já não sei se é jogo, ou se poesia.

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 10h10
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Carlos Drummond de Andrade

 

No meio do caminho


No meio do caminho tinha uma pedra


tinha uma pedra no meio do caminho


tinha uma pedra


no meio do caminho tinha uma pedra.


Nunca me esquecerei desse acontecimento


na vida de minhas retinas tão fatigadas.


Nunca me esquecerei que no meio do caminho


tinha uma pedra


Tinha uma pedra no meio do caminho


no meio do caminho tinha uma pedra.

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 09h47
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08/07/2008


final do dia

 

 

 

Agora findou o dia

Quanto viveste?

Quanto deixaste de viver...

 

 

 

Quantas flores plantaste?

Quantas colheste?

Quantas deixaste de colher...

 

 

 

Agora findou o dia

Quanto deixaste de viver?

Quanto viveste...

 

 

 

Quanto tu sorriu?

Quanto sorriram para ti?

Quanto deixaste de sorrir...

 

 

 

 

Agora findou o dia

Quanto viveste?

Quanto deixaste de viver...

 

 

1993

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 10h19
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O mundo nos dá aquilo que damos a ele, como nosso reflexo num espelho...

 

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 10h06
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13/12/2007


Meditemos...

A profundidade de nosso ser sabe que o ano termina?

Minha sombra de nada sabe, apenas vaga, buscando luzes no universo escuro...

Meu Hades esteve tão perto de revelar seu amor...

Eu, Perséfone, ainda vago pelos escuros recônditos de suas terras, clareio os rostos sofridos das almas aqui presas e acaricio as três cabeças de Cérbero, amigo...

Espero...

Hades há de declarar-me seu amor...

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 20h02
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17/07/2007


Minha sombra se revela enquanto caminho lúcida em direção ao abismo de mim...

Hoje sou Perséfone acariciando Cérbero que assusta com meus medos... no limiar, e clareando o profundo e escuro Hades...

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 09h27
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05/01/2007


Reflitamos um pouco em nossas vidas, tão cheias de máscaras...
Quem já teve a coragem de Fernando Pessoa em se mostrar como realmente é
 
Álvaro de Campos

 

Poema em Linha Reta
 
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza. 

 
 

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 08h43
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04/01/2007


PERSÉFONE

 

Tez pálida, outrora medo

Agora, pena daqueles

Gementes nas profundezas

 

Boca da caverna

Misto de dor, amor e temor

Titubeia, desce

Ali finaliza seu destino

 

Romã aberta

Pequenas sementes entre dedos

O sumo da fruta na boca

Feliz desce, busca a escuridão

 

Sua Luz interior ilumina os caminhos

Desesperados, nela encontram esperança

Cérbero se curva,

Ante a rainha, pálida Luz

 

Hades, face crivada pela dor, espera

Nela, sua redenção

Nela, talvez, amor

 

Perséfone se aproxima

Hades oferece-lhe a mão

Luz e escuridão

Explosão!

 

Pequeno universo multicolorido redemoinha

Ascende

compreensão... comunhão...

amor...

Junho/2006

 

 

 

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 06h45
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02/01/2007


Que Perséfone possa nos levar cada vez mais fundo dentro de nós mesmos...

 

Feliz 2007 a todos!!!

 

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 10h10
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ÁGUIA

 

Da profundeza do não ser

Renasço qual águia

Após longa e dura jornada

 

Troco minhas penas

Por luzes a brilhar

Depois de tormenta

 

Troco minhas garras

Doloridas por caminhar

Agora sigo novos rumos

 

Troco meu bico

Cansado de guinchar

Por doces palavras

 

Troco um coração

Triste por esperar

Pela renovada alegria de viver

 

E alço vôo ao infinito

Feliz a amar...

março;2006

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 09h52
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29/12/2006



Quem é Perséfone

Ela nos fará mergulhar nas profundezas do ser e trazer a tona o que realmente somos...

"

A Sacerdotisa (Perséfone, rainha das trevas interiores)


É uma mulher espiritualizada, que revela forças ocultas e segredos, dotando-nos com esse conhecimento, é a imagem do elo com o misterioso e insondável mundo interior que denominamos "inconsciente". Esse universo contém nossos potenciais a serem desenvolvidos bem como as facetas sombrias e mais primitivas de nossa personalidade.
A Sacerdotisa é a lei natural operando dentro das profundezas da alma, que governa o desenrolar do destino a partir de um ponto invisível e que é apenas revelado por meio do sentimento, da intuição e dos sonhos.
Ela indica a força da intuição do indivíduo e sugere que haverá um encontro com o mundo interior.
O indivíduo pode estar sendo conduzido para esse mundo sem qualquer explicação por intermédio de seu interesse pelas coisas ocultas, pelo esoterismo ou, talvez, pelos efeitos de algum sonho perturbador. Enfim, por algo que de alguma forma lhe diga que existem forças superiores que atuam na vida das pessoas.

Todas essas análises e figuras foram extraídas do livro "O Tarô Mitológico" Juliet Shaman- Burke e Liz Greene                   "

Escrito por Perséfone(LindaBia) às 07h31
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26/12/2006



Passou o Natal...

Passei ilesa, sem grande estresse desta vez, calma e tranquilidade como há muito não tinha...

Noel! Este grande trapalhão, onde andará...

Caminha tranquilo entre as campinas nevadas de sua cidade. Dorme o sono dos justos, pois que acorde quero meu presente!

Noel esquece sempre que pedi algo... Será que não pode me dar, e pq tenho de ficar para sempre só, e pq não vens me consolar...

Natal ilesa. jamais... tenho de me conformar...

Noel seu grande trapalhão, sempre esquece...

 

Escrito por Lindabia às 09h40
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BRASIL, Sudeste, Mulher, de 46 a 55 anos, Cinema e vídeo, Arte e cultura, Bordados; Poesia; Passeio ao ar livre.

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